Mais um texto meu, um dos meus favoritos.
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Branco.
O corredor estava vazio e escuro devido à tarde hora da noite. Ele andava devagar, os sapatos brancos fazendo um som irritante no chão sempre limpo demais. Os dedos finos correram pelo estetoscópio pendurado em seu pescoço, puxando-o e segurando firme em sua mão.
Mais um plantão, mais uma noite de sono interrompido e chamadas intermináveis. Reprimiu um bocejo, parando para observar mais um dos pacientes. Ele dormia. Não conseguir evitar pensar que cada pessoa naqueles leitos não era certa de acordar na manhã seguinte.
Por vezes e vezes já teve vidas se perdendo por suas mãos. É normal, seus colegas diziam, mas sabia que também se afetavam quando acontecia com eles. Não tinha como não se afetar com toda a confiança que tinham neles. Apenas pessoas que estudaram uma faculdade longa e cheia de detalhes, o que não quer dizer que possam controlar quem vive e quem morre.
Entrou em um dos banheiros para funcionários, encontrando seu rosto pálido refletido. As olheiras visíveis e o cabelo desalinhado. Seus olhos não tinham mais o mesmo brilho da adolescência. Sonhara em ser tantas coisas, desde escritor à astronauta. Mas a família era mais forte, o pai e avô médico logo destruíram qualquer sonho que o garoto pudesse ter. E agora se encontrava encarando uma figura que não se reconhecia mais. Expressão abatida, olhos cansados.
Sonhou em ser especial. Sonhou em talvez ter uma banda e fazer com que o mundo inteiro o conhecesse, ou talvez pelo menos o país, para não ser tão ganancioso. Ou talvez um repórter que viajasse pelo mundo.
Riu de si mesmo ao perceber que voltara a pensar no que poderia ter sido. Acostumara-se em ser apenas uma sombra dos que vieram primeiro. Aprendeu a duras penas, mas aprendeu. Se lamentar por não ser algo que talvez nem desse certo não ia levá-lo a nada. Sabia que seria pra sempre um eco do que eles foram.
Ele seria um grande médico, certo? Se o pai e o avô foram, isso nem era mais o esperado, e sim o estritamente necessário. Confiavam nele pelo sobrenome preso em seu peito. E se ele não fosse como eles foram?
Os passos foram incertos e sonolentos, culpa das horas que estava trabalhando, em direção ao complexo dos funcionários. Andou o longo corredor, não sem antes cumprimentar um último faxineiro que terminava de limpar o chão. Os lances da escada foram vencidos com lerdeza e a porta se abriu para um dos pequenos quartos.
Estava escuro e vazio, como ele gostava. Deixou o corpo cansado cair sobre a poltrona não muito confortável, encarando as próprias mãos sob a meia luz. Sua visão entrecortada pela luz que atravessava as persianas quase fechadas.
Mas por mais cansado que estivesse, não conseguia dormir, sempre se sentando no mesmo lugar, o olhar perdido. Era ali que passaria o resto da vida, mesmo que não fosse fisicamente. Seria sempre o mesmo quarto, a mesma poltrona e os mesmos sonhos despedaçados.